no diário: 07 de maio de 2025



    é três da tarde e um pássaro pia em algum lugar próximo da janela do meu quarto.    eu não havia notado essa presença até encostar os dedos no papel. é absurdo e meio deprimente pensar em como os sons se tornaram para mim uma fonte de tormento desde o último ano. tanto a ponto de esse piar causador de desacelerações ter sido completamente filtrado para fora de meu centro de controle perceptivo.     é meio triste.

    o sensorial não pode -- e não deveria -- ser apenas meu inimigo. há substância nele o suficiente para que se faça também semente de bons momentos. como o piar desse pássaro.

    de vez em quando eu sinto que o mundo vem avisar que ele existe além de mim. como a época em que várias borboletas passaram a voar ao redor de minha casa, todas as manhãs. ou quando libélulas passavam as tardes pousadas numa haste em frente à minha janela. e depois eu descobri que as libélulas têm visão de quase 360 graus, então elas deviam enxergar o mundo muito mais do que eu.

    --- vou confessar, meu maior medo, mesmo, é esquecer o sabor da existência.    quanto mais as pessoas crescem, mais elas esquecem. vai escapando de nós como uma memória antiga, alterando-se até deixar de existir, sem que possamos perceber.

    eu sinto que isso às vezes me ocorre, e é preciso, então, continuar a escrever, para que eu não me esqueça. escrever me lembra de notar o silêncio, e o piar desse pássaro me lembra da existência e do verde vivo da grama.

    [...]

    não há vida alguma na pura produção. é preciso haver substância; é preciso que o mundo se entrelace nas palavras. só assim, eu acho, é que se vive sem esquecer. e assim se vê o mundo como as libélulas.

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